Transgêneros em times femininos: a polêmica que está dividindo o mundo do esporte

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SOCIEDADE — Em 1975, a tenista trans Renee Richards foi criticada por atletas no US Open. Protestaram na Federação de Tênis nos EUA para que ela não pudesse participar de competições.

Pediram, então, que Renee fizesse um teste de “sexo biológico”. Ela recusou e levou o caso aos tribunais. Ganhou na corte, e, em 1977 participou do WTA, uma associação de tênis feminino, onde permaneceu até 1981.

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Em janeiro de 2004 a Federação Internacional de Vôlei aboliu os testes de gênero, mas manteve a proibição de transexuais em quadra.

Mais tarde, em março, a participação de uma golfista transexual no Mundial Feminino gerou polêmica, pela segunda vez.

Já naquele tempo se abriu o questionamento – que havia sido esquecido – e sobretudo aqui no Brasil, agora ele está de volta: é justo que trans participem de times femininos?

Como explícito na pergunta, a polêmica se restringe a homens transformados em mulheres, pois esses levariam vantagem em relação às rivais. Fisiologia pura. Em situações contrárias, mulheres transformadas em homens não teriam o mesmo privilégio sobre os adversários.

“Como é uma circunstância ainda recente, faltam elementos para julgar. Isso ainda requer um certo tempo para se ter todas as necessidades atendidas para que esse tipo esse indivíduo não tenha vantagem”, disse o fisiologista Turíbio Leite, especialista no meio esportivo, há 13 anos atrás.

“Do ponto de vista social é muito válido que o transexual seja aceito na categoria de seu novo sexo. Mas para a competição talvez fosse necessário criar parâmetros especiais para aprovar ou não a participação”, disse, também naquela época, José Carlos Riechelmann, presidente nacional da Associação Médica Brasileira de Sexologia.

Os especialistas explicam que a mudança de sexo não altera por completo a estrutura corporal. E é aí que mora a polêmica.

Mesmo que uma mulher trans tenha feito a mudança de sexo, continua tendo hormônios masculinos. Além disso, pelo sexo masculino possuir maior número de glóbulos vermelhos, após a mudança a pessoa ainda terá mais resistência física para atividades de longa duração.

Com a terapia hormonal a pessoa pode desenvolver características do novo sexo, só que independente disso os especialistas continuam apontando problemas na questão esportiva.

“É natural perder muita massa muscular, mas mesmo assim não é uma relação idêntica à da mulher. Você pode conseguir deixar um homem com o corpo de mulher mesmo sem a retirada de órgãos”, diz Riechelmann.

“A resposta vai depender do efeito dessa terapia hormonal. E outra grande questão é: uma vez transformada, interessa para ela manter essa terapia hormonal? Vai ser cobrado algum tipo de controle?”, questiona Turíbio.

A Reunião

Ainda em 2004, houve uma reunião na Suécia, em outubro, com médicos do Comitê Olímpico Internacional, o COI. Eles acenaram para a possibilidade de admitir a participação de transgêneros já nos jogos Olímpicos que aconteceriam naquele ano, em Atenas. Só que no fim a entidade recuou e decidiu adiar a decisão para 2008, quando aconteceria a Olimpíada de Pequim.

“Até hoje existiam pessoas que faziam a cirurgia por motivos sem relação com o esporte. Mas, quando se trata de um esportista, existe a preocupação da possibilidade de pessoas quererem tirar vantagem”, disse Turíbio, que já previa a inclusão dos transexuais nos esportes num futuro próximo. “O futuro é vencer essas barreiras todas. Sempre vai existir a discussão em dois níveis: do preconceito, que deve ser considerado, e o outro, de evitar que alguns tenham vantagem.”

Turíbio tinha razão. Hoje, que o assunto voltou com força, os dois pontos são centrais nos debates: os defensores da inclusão dizem que os contrários são preconceituosos. Os contrários dizem que é injusto, pois as diferenças fisiológicas não podem ser ignoradas.

2013

A lutadora transexual Fallon Fox foi a protagonista da polêmica. Sua adversária, Ronda Rousey, se manifestou contra a sua participação em torneios. “Cada caso é um caso, você realmente tem que ficar atendo a isso, mas no caso da Fallon Fox, eu acho que ela tem uma vantagem injusta”, declarou ao TMZ. Depois disse que Fallon poderia “cortar o pau que a estrutura óssea seria a mesma”.

2016

No ano passado, o COI divulgou um relatório com diretrizes para a participação de atletas transexuais em competições esportivas, que já valeriam para os Jogos Olímpicos do Rio. Vejam só: desde 2004, quando recuaram no assunto, demoraram 12 anos para decidirem pela admissão.

Em uma “Reunião de Consenso sobre mudança de sexo e Hiperandrogenismo” do COI, o Comitê decidiu que “é preciso garantir que os atletas trans não sejam excluídos da oportunidade de participar de competições esportivas” e afirmou que, desde 2003, reconheciam a importância da autonomia da identidade de gênero na sociedade.

“O COI considera que as mudanças cirúrgicas de mudança de sexo (cirurgia de transgenitalização) não “são necessárias para garantir uma competição justa e podem ser inconsistentes com o desenvolvimento de leis e dos direitos humanos”.

Para a entidade, haveria restrições adequadas para garantir a competição leal e justa entre atletas, por isso estabeleceram as regras a serem seguidas.

“No caso de mudança de sexo biológico de masculino para o feminino, a atleta tem que ter declarado a identidade de gênero feminina e manter nível de testosterona, hormônio masculino, dentro do nível permitido para disputas: abaixo de 10 nmol/L durante os últimos 12 meses antes de sua primeira competição e manter este nível durante o período de competição. Já quando a mudança de sexo biológico for de feminino para o masculino não estão previstas restrições.” Quem descumprisse, teria 12 meses de suspensão.

Para a especialista em saúde transgênero, Joanna Harper, “as novas regulamentações do COI para pessoas transgênero resolvem quase todas as deficiências das regras antigas”.

“Esperamos que outras organizações esportivas adaptem-se rapidamente às novas recomendações do COI, e todas as regulamentações antiquadas quanto a pessoas transgênero sejam logo substituídas. O período de espera para mulheres trans deixa de ser dois anos depois da cirurgia de adequação de gênero para um ano depois do início da terapia hormonal. Isso vai de encontro com as regras da NCAA (liga universitária), e é excelente. O período de espera era, talvez, o item mais polêmico em nosso grupo, e um ano é um meio-termo razoável.”, disse.

2017

Aqui no Brasil, a contratação de Tiffany Abreu em um time feminino de Vôlei de Bauru abriu o debate.

Tiffany teve autorização da comissão médica da Confederação Brasileira de Vôlei, a CBV. Só que a sociedade não aceitou bem a novidade.

A ex-jogadora Ana Paula foi a primeira a se pronunciar contra a liberação e dizer que outras atletas também não concordam, mas não falam por medo da patrulha ideológica que existe hoje em dia, sendo que a defesa da inclusão de transexuais no esporte é, principalmente, do Movimento LGBT de correntes de esquerda, que tende a taxar todos que discordam de suas pautas de homofobia. E isso é exatamente o que está acontecendo.

Tiffany abriu o precedente

Carol Lissamara, 27 anos, é uma atleta transexual do Rio Grande do Sul que sonha em estar na elite do vôlei de praia nacional, e participar do Circuito Brasileiro da modalidade. Tiffany é sua inspiração e referência.

Além de Tiffany Abreu, ela também cita Isabelle Neris, trans que recebeu autorização para jogar em torneios ligados à Federação Paranaense de Vôlei. Carol usa os exames hormonais das duas como comparativo de seu nível de testosterona.

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O presidente de um time de vôlei, Fillipo Vergano, não acha que a disputa seja justa: “É normal civilmente (ser mulher transexual e estar entre as mulheres cis), mas esportivamente não é normal. Porque ela é muito mais forte que as outras jogadoras”.

Não é preconceito, é fisiologia

Mulheres trans produzem ou já produziram testosterona em quantidade até 10 vezes superiores à de mulheres cis. Isso dá vantagem no esporte.

Os especialistas apontam que mesmo com o tratamento hormonal, ainda há desvantagem. As diretrizes do COI pedem, pelo menos, 12 meses tratamento. Não é obrigatório mudar de sexo, apenas que declarem o gênero feminino e “não mudem de ideia durante 4 anos”.

Os contrários argumentam que a estrutura óssea e os músculos não se alteram após a hormonoterapia. Os favoráveis dizem que após o tratamento se igualam as condições e que mulheres trans podem até ter desvantagens sobre as mulheres cis.

Uma estudiosa favorável a inclusão trans em times femininos, Joana Harper, defende que “carros menores com motores pequenos podem ultrapassar carros maiores com motores pequenos”.

O ILISP também tratou do assunto, leia um trecho:

“Em março deste ano [2017] Laurel Hubbard, “mulher trans” de 39 anos, venceu uma competição de levantamento de peso feminino na Austrália. Laurel quebrou quatro recordes ao levantar 268 quilos, 19 quilos a mais do que a segunda colocada, na categoria para mulheres que pesam mais de 90 quilos. Oito meses depois, no Mundial de Halterofilismo, Laurel levantou 275 quilos e ganhou a medalha de prata. Laurel nasceu Gavin, competiu contra homens e chegou a bater o recorde júnior da Nova Zelândia (na categoria para atletas com mais de 105 quilos) levantando 300 quilos. Para não competir com Laurel, a melhor halterofilista neozelandesa, Tracey Lambrechs, perdeu 17 quilos a fim de competir na categoria até 90 quilos.”

E por ondem andam as feministas?

Dentro do movimento feminista, há uma divisão quanto a questão. As favoráveis são da vertente “transativas” e chamam as contrárias de “radicais trans excludentes e transfóbicas”. São essas mesmas que classificam como transfóbicos aqueles que dizem que mulheres menstruam, porque a afirmação excluiria as mulheres trans. (?)

Já a vertente que consideram que as mulheres trans continuam sendo homens – segundo a anatomia e a biologia – dizem que as feministas da vertente “transativistas” colocam os sentimentos de gênero de homens abusivos acima das mulheres reais e que isso cria um “Cavalo de Troia”, já que permite que homens ocupem espaços de mulheres.

O futuro

Mesmo causando polêmica e muitas divisões, a tendência é de que nos próximos anos mais transexuais participem de times femininos, e sejam destaque. É justo? Não, mas do jeito que as coisas caminham, é o que irá acontecer.

E você, o que acha do assunto? Deixe seu comentário.

1 COMENTÁRIO

  1. Dizem que respeitar as pessoas é aceitar as diferenças. Então eu pergunto: “Aonde está o respeito dos trans pelas mulheres, sabendo estes que estão em larga vantagem física”? Então como fica nestes casos a relação de “Direitos Iguais”? E isto enterra definitivamente a ideologia de gênero. O sexo não é uma definição social, mas biológica. Se classificamos os jogadores por idade para não haver vantagem física de uns sobre os outros, quiçá de um sexo para outro, sabendo-se claramente que a força física de um homem atleta em alto nível está muito longe do de uma mulher nas mesmas condições. Peguemos o exemplo do vôlei. Uma partida entre mulheres é completamente distinta de uma entre homens. Neste, o jogo é mais físico, a bola mais forte deixa ele muito mais rápido. Isso nem sempre conta contra o feminino: nas mulheres, a bola mais lenta gera mais ralis, mais disputa. Existem táticas específicas para feminino e masculino, tornando o esporte diferente, mas atrativo nos dois gêneros. No fim acabamos ficando cada vez mais enojados com esta maneira de forçar a barra da aceitação em qualquer coisa e sobre qualquer circunstância. O melhor que as jogadoras tem a fazer é boicotar os jogos. Se o sujeito é trans e veio do sexo masculino deve jogar no masculino, se é trans e veio do sexo feminino joga no feminino. Fim de papo, pois o resto é marxismo cultural gramsciniano.

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